Uma breve história da mão esquerda

Com que mão você escreve? Direita ou esquerda?

Christian von Koenig

Uma em cada dez pessoas lendo este artigo é canhota, estatisticamente falando. Estima-se que 10% a 12% da população mundial penda para a esquerda, não politicamente falando.

Como se não bastasse ser minoria desde os Neandertais, canhotos e canhotas convivem com outras estatísticas pouco felizes:

Envergonham-se mais facilmente e se preocupam mais com erros e críticas;

Têm uma tendência maior à esquizofrenia e à dislexia;

Vivem, em média, nove anos a menos que destros.

Se você for uma pessoa canhota e estiver usando um desktop ou um laptop, há também 50% de chances de controlar o mouse com a mão direita, porque o mundo não é feito para sua ergonomia. Das carteiras da escola, aos materiais de escritório e aplicativos de paquera, tudo passa à direita.

Até quando enfim se cansar disso e decidir cobrar justiça ou fazê-la com a própria mão, ainda terá de se apoiar justamente no Direito.

Mas ao menos pode comemorar o Dia Mundial dos Canhotos em 13 de agosto.

“Então onde estão meus parabéns?”, você deve estar se perguntando. E com certeza merece muito mais que isso. Merece um pedido de desculpas por tudo que nós, os destros, temos zombado da sua condição ao longo de séculos.

Em latim, a direita e a esquerda eram dextra e sinistra. A primeira palavra ficou associada ao que é direito, reto, louvável — enquanto a segunda está ligada aos fatos mais sinistros, como acidentes.

Ironicamente para você que aprende a fazer tudo com as duas mãos, quem tem habilidade é destro, mas os desajeitados são chamados de canhestros. Canhoto talvez venha do galego canho, significando pau ou palha, sem explicar coisa alguma de desajeitamento.

Já a palavra “esquerda” tem uma história mais confusa. É certo que surgiu em português por meio do castelhano izquierda, que teve origem no basco ezquer. O que isso significava na época pré-romana é motivo de debate e pode ser:

esku (mão) + oker (torto)¹

ou:

esku (mão) + arra (macho)²

Logo, decidir entre ter uma mão torta ou ter uma mão macha está no seu direito. Opa, brincadeira!

Nem se pode acusar apenas as línguas romanas dessa perseguição. Ser gauche na vida, como escreveu Carlos Drummond de Andrade no Poema das sete faces, parece ser o destino das canhas de qualquer lugar.

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche* na vida.”

* Do francês: esquerda, inábil, inseguro.

O inglês também tem preconceitos com a esquerda — e isso muito antes de Trump. A direita dos anglófonos vem do protoindo-europeu hreǵtós, que se referia a “endireitar, em linha reta”. Daí que right hoje é all right.

Mas esse protoindo-europeu acertou um direto na cara de qualquer pessoa canhota quando definiu a esquerda: (s)leup (balançar como um coxo), que virou lyft (fraco, inútil) e, por fim, left no inglês moderno.

Não à toa os canhotos são vistos como leftovers** e então left behind***.

** Sobras, restos. *** Deixados para trás.

E de que modo esquerda e direita caíram no tapa também na política? Como tudo que comentei neste artigo, do jeito mais arbitrário possível!

O ano era 1789 e a Assembleia Nacional da França foi dividida em dois grupos em meio à Revolução: os mais conservadores a favor do rei ficaram à direita dos assentos, enquanto os revolucionários postaram-se à esquerda. Sem tal definição prévia, qualquer pessoa sensata associaria um movimento progressista com o lado direito. Isso nada tem a ver com mãos e eu posso explicar.

A maioria absoluta das culturas ocidentais lê do lado esquerdo para o direito, o que afeta nossa interpretação do mundo. Nossos registros de progressão acontecem nesta ordem:

Um, dois, três.

Passado, presente, futuro.

Ou seja, o espectro político foi baseado na posição de bancos e não na lógica!

Esquerda e direita são as piores definições políticas que alguém poderia ter inventado. Não basta as pessoas canhotas sofrerem injustiça, como também a própria ideia de progresso social é associada ao sinistro, ao canhestro, ao fraco.

Diante disso, meu amigo canhoto, minha amiga canhota, saiba que apoio qualquer revolução que deseje fazer. Do mesmo modo que a política precisa de um conceito melhor da esquerda, o mundo deve entender de uma vez por todas a capacidade, a força e a superação que há em você.

Agora só me resta dar-lhe os parabéns e prometer que nunca mais direi gracinhas sobre o assunto. Vou me comportar direito daqui para a frente e peço que marque minha palavra no canhoto para me cobrar depois.

Visitado em 07/04/2020


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