Onde está o mal nesta carteira?

Onde está o mal nesta carteira? por M.K.

Introdução
Surpreendê-lo-ia saber que os resultados dos testes de alguns alunos, realizados em tempo fixo, podem ser melhores ou piores dependendo do tipo de carteira em que se sentam? Ou que frequentemente alguns alunos são injustamente acusados de fazer batota quando escrevem num determinado tipo de carteira?

Preocupar-se-ia se o seu filho ou aluno tivesse de se sentar a uma carteira que lhe poderia provocar dores crónicas nas costas, pescoço e ombros? Dez a trinta por cento de todos os estudantes estão comumente sujeitos a estes e outros problemas relacionados com carteiras.

Porquê? Simplesmente porque alguns políticos e vendedores de mobiliário aceitam como verdadeiras ideias pré-concebidas relativamente a infra-estruturas.

Cadeiras escolares com apoios laterais para o braço representam um obstáculo à aprendizagem desde o ensino pré-primário até ao universitário. Contudo, este é um problema que pode ser facilmente resolvido por pais, estudantes, professores, administradores, designers de equipamento escolar e compradores de mobiliário melhor informados.

Preocupações Médicas
Uma cadeira escolar com apoio lateral para o braço direito não oferece aos alunos esquerdinos o mesmo apoio para o braço que oferece a um aluno dextro. Dependendo da largura do apoio lateral e do modo como seguram o lápis, os esquerdinos estão sujeitos a dores nas costas, pescoço e ombro. Um esquerdino que escreva com uma posição invertida ou “em gancho” (com o pulso dobrado), sentado a uma carteira estreita, tem de se torcer, adoptando uma postura contorcida que é estranha e desconfortável.

Considere as seguintes experiências de estudantes:

“Depois de anos a usar carteiras com apoio lateral para o braço direito, comecei a ter espasmos musculares à volta da área da omoplata. No ensino superior estava sempre com dores nas costas até que comecei a tirar apontamentos no colo… Isto permitiu que descansasse o meu braço esquerdo, impedindo o esforço causado pelo facto de não ter apoio para ele. Cinco anos após ter deixado o ensino superior, ainda tenho alguns problemas…”

“Como aluno do ensino superior tendo de usar… cadeiras escolares com apoio lateral para o braço direito, posso confirmar as dores de costas horríveis que me causaram pelo facto de ter de contorcer o meu corpo para me sentar e escrever. Isto aconteceu apenas dois meses depois de usar tais cadeiras.”

“Durante o ensino secundário e superior, muitas vezes me vi torcido à volta de cadeiras com apoio lateral para o braço direito tentando encontrar uma posição confortável para escrever nelas… isto contribuiu para as horríveis dores lombares que tenho tido desde os meus 16 anos.”

“Tenho problemas crónicos nas costas, ombros e pescoço… relacionados com a posição “torcida” em que eu (um esquerdino) sou forçado a sentar-me para ter uma superfície dura em que escreva.” (REFS: Holder, 1998)

Desvantagem em Testes com Tempo Fixo
Devido ao facto de muitos alunos esquerdinos terem de torcer os seus corpos, virados para a direita, para escreverem numa carteira com apoio lateral para o braço direito, podem ser injustamente acusados de fazer batota. Mas mais importante do que isto, a ineficaz e estranha posição de escrita que alguns esquerdinos têm de adoptar nessa espécie de carteira pode fazer com que escrevam mais devagar, colocando muitos alunos esquerdinos em desvantagem em exames importantes (e.g., Provas de acesso ao ensino superior). Assim, em testes que têm de ser feitos dentro de limites temporais, os esquerdinos não se deveriam sentar no tipo de carteiras acima referido, mas numa carteira completa ou numa mesa.

Professores, certifiquem-se que os vossos alunos esquerdinos não estão sentados em cadeiras com apoio lateral para o braço direito durante testes com tempo fixo (imprimam isto para mostrar a outros professores). E tenham consciência que para todos os testes administrados por ETS (e.g., GRE, TOEFL), se um aluno chegar ao local de realização do teste e achar que as instalações são inaceitáveis para esquerdinos, tem menos de uma semana para prencher uma queixa. (REF: Educational Testing Service, 2003).

“Sou esquerdino e… um aluno muito bom. Contudo, em testes com tempo fixo, tenho andado sempre a correr contra o relógio e não tenho sido capaz de produzir a mesma quantidade de texto escrito que os meus colegas dextros… estamos em desvantagem em testes com controle rígido do tempo…”

“Nada mais enerva um aluno bem preparado no dia do exame do que ter de torcer o corpo todo para poder escrever nas carteiras com apoios laterais para o braço direito… o uso forçado de tais carteiras foi um sério detrimento para o meu curso universitário.”

“Tenho sido frequentemente acusado de fazer batota nos testes devido ao modo como tenho de me sentar em cadeiras com apoio lateral para o braço direito.”

“… Os esquerdinos estão em desvantagem em alguns testes de QI e testes escolares… especificamente aqueles que usam folhetos de escolha múltipla. Têm de torcer os braços à volta de cada um para alinhar as perguntas (à esquerda) com as respostas (à direita). Definitivamente perdem tempo com isto… e, na maioria destes testes, o tempo é importante.”
(REFS: Holder, 1998)

Onde está o mal?
O fundo da questão é este: qualquer coisa que interfira com a capacidade de aprendizagem e execução de um aluno merece séria atenção. Pelo que a minha experiência me diz, esta carteira poderia estabelecer a diferença entre passar ou reprovar (quando coloquei alunos que não dispunham de um lugar confortável, ou eram relegados para assentos só disponíveis no fundo de uma grande sala de aulas, em carteiras completas, bem colocadas, a sua pontuação melhorou uma letra numa escala de letras).
Para muitos esquerdinos, tentar trabalhar numa cadeira com apoio lateral para o braço direito é difícil, desconfortável, frustrante e confuso – nada conducente a aprendizagem. E quando um esquerdino depara com uma sala cheia de cadeiras do tipo mencionado, a mensagem do sistema escolar soa alto e bem: nós só nos importamos com os outros, tu não contas.

“para mim, o facto de as cadeiras da escola terem sempre o apoio para o braço do lado direito sugeria que havia alguma coisa intrinsecamente melhor nas crianças dextras. Isto era reforçado pelos professores que nunca entendiam ou tentavam ajudar os esquerdinos na escrita, nos desportos, etc. Espero que esses dias tenham passado para sempre.” (REFS: Holder, 1998)

Discriminação Instituconalizada
Historicamente, o sistema das escolas e das universidades ou (a) falhou em compreender os sérios problemas associados com as carteiras com apoio lateral para o braço direito ou (b) assumiu que procedia bem comprando uma certa percentagem (5%-20%) de carteiras com apoio lateral para o braço esquerdo. Mas sabemos que todos os alunos trabalham melhor em carteiras completas, com espaço amplo para poderem escrever confortavelmente, e usarem o seu livro ou computador portátil.

Carteiras completas podem ser carteiras individuais ou mesas que dois ou mais alunos partilham. Meias carteiras com apoio para um dos braços representam um assento de qualidade inferior para os alunos. A estratégia de comprar uma certa percentagem de carteiras com apoio para o braço direito e uma certa percentagem com apoio para o braço esquerdo só assegura que, em qualquer altura, um certo número de estudantes (tanto esquerdinos como dextros) tenham de suportar posições sentadas, biomecanicamente incorrectas, que os afastam da sua capacidade de concentração e execução.

O Problema com uma Estratégia de 10% ou 20% de Carteiras com Apoio Lateral para o Braço Esquerdo

Percentagens de compras em grande quantidade dificilmente estarão de acordo com a probabilidade estatística de os alunos encontrarem carteiras nas salas de aula que se adequem à sua prevalência manual.

Por exemplo, uma estudante diplomada esquerdina disse-me que desde a pré-primária até à universidade e em dois anos de pós-graduação nunca se tinha sentado numa carteira com apoio lateral para o braço esquerdo. Uma turma pode não ter esquerdinos e a seguinte pode ter 30%.

Uma estratégia de aquisição de uma certa percentagem de carteiras só garante que durante cada uma das aulas, alunos individuais sofrem em salas de aula individuais.

Os compradores podem também falhar na avaliação do que acontece depois de as carteiras serem colocadas nas salas de aula. Se se encontrarem carteiras com apoio lateral para o braço esquerdo, ver-se-á que estão muito frequentemente mal colocadas, ao longo de um dos lados ou ao fundo da sala, negando aos esquerdinos o direito de se sentarem onde quiserem.

“Há ALGUMAS carteiras para esquerdinos, MAS estão normalmente no fim das filas nos anfiteatros. Gosto de me sentar no meio da sala, para que possa ver tudo… tem de haver um modo melhor de organizar as carteiras para que os esquerdinos possam escolher onde querem sentar-se e não onde têm de se sentar.”

“Na escola secundária tinha que andar à caça de uma carteira para esquerdinos (que normalmente estava ao fundo da sala)… [sem uma carteira para esquerdinos] era muito difícil para mim tirar bons apontamentos.”

“É muito difícil para os alunos que escrevem com a mão esquerda trabalhar em carteiras desenhadas para dextros. Acabamos a tentar contorcer o corpo para nos adaptarmos ao design para dextros. Mesmo na escola secundária e no ensino superior, poderá haver só uma ou duas carteiras para esquerdinos em quarenta.”

“… a minha experiência escolar teria sido muito, muito mais confortável e propícia à aprendizagem se eu tivesse tido acesso a uma carteira para esquerdinos nas minhas aulas. Isto é especialmente verdade para os testes longos. Calculo que tive acesso a uma carteira para esquerdinos aproximadamente durante 1% do tempo que passei na escola (desde a pré-primária até 4 anos de ensino superior).”
(REFS: Holder, 1998)

Embora muitas escolas e universidades adiram a políticas anti-discriminatórias, administradores e agentes de compras continuam insensatamente a institucuionalizar a discriminação, comprando carteiras com apoios laterais para um braço. Carteiras sem estes apoios podem ser manufacturadas ao mesmo preço que carteiras com eles e os seus assentos não ocuparão mais espaço por isso. Não há razão para que continuem a existir carteiras com apoio lateral só para um braço.

Para Administradores, Designers & Compradores
Carteiras normais são comparáveis em tamanho, qualidade e preço- não há justificação para que se comprem carteiras com apoio lateral só para um braço. Quando se compram estas, institucionaliza-se a discriminação (quer contra estudantes esquerdinos,quer contra dextros). O que é uma boa notícia é que, enquanto há muitos problemas intrincados no mundo, a discriminação de carteiras não é um deles.

A discriminação de carteiras na sala de aula é um problema que pode ser facilmente resolvido – na sua escola, hoje, por si. Proponha e aprove uma cláusula não-discriminatória, para o design de salas de aula e critérios de compra de carteiras, que estipule que não serão compradas carteiras só com apoio lateral para um braço. (E tenha consciência que se a sua escola já tem uma política geral de não – discriminação, a compra de tais carteiras viola o espírito, se não a letra, de tal política.) Administradores, membros de comités responsáveis por salas de aula, designers de salas de aula, compradores de mobiliário – melhorem a qualidade da educação na vossa instituição. (O HRI apreciaria saber sobre a vossa liderança nesta área.)

Para Estudantes, Professores & Pais
Está cansado das estranhas e desconfortáveis carteiras com apoio lateral para um braço que dificultam a concentração dos estudantes e que impedem que dêem o seu melhor? Pensa que não pode fazer nada acerca disso? Pense outra vez. A decisão sobre a compra destas carteiras é tomada por uma só pessoa ou um pequeno grupo de pessoas que querem o melhor para os seus alunos e a sua escola.

Claramente não sabem avaliar os sérios problemas associados com esse tipo de carteiras ou não as comprariam. Tome a seu cargo informá-los. Tudo o que tem a fazer é (a) saber quem toma decisões em relação à aquisição de carteiras na sua escola e (b) imprimir este artigo e enviar-lho. Para escolas de ensino pré-primário e básico, pergunte ao seu director ou ao responsável pela escola quem é que define a política de compra de carteiras e toma decisões.

As universidades e escolas politécnicas muitas vezes têm um perito em mobiliário no departamento de compras ou no escritório do arquitectura, que trabalha em articulação com os comissões de turma que tomam estas decisões. Envie este artigo a responsáveis por políticas, juntamente com um pedido polido para que se implemente na escola uma política que estipule que não serão compradas novas carteiras com apoio para um só braço. (E conte-nos o seu sucesso.)

Claro que até que as velhas carteiras sejam substituídas, teremos de continuar a usar estratégias criativas para lidar com a frustração. Professores, certifiquem-se que os esquerdinos estão sentados em carteiras completas durante testes com tempo fixo. Se tais carteiras não existem, tratem de encontrar uma e tragam-na para a aula para esta finalidade.

Administradores, ajudem os professores e os estudantes providenciando carteiras completas que possam ser transportadas de uma sala de aulas para outra, se necessário. Associações de Encarregados de Educação ou de Professores também podem ajudar informando os pais, os estudantes, os professores e administradores acerca dos problemas relacionados com as carteiras com apoios laterais para um só braço, sugerindo a implementação de políticas e possivelmente ajudando a juntar dinheiro para comprar novas carteiras.

Estratégias Para Lidar com a Frustração
Estudantes, aqui estão algumas estratégias para lidar com a frustração que colegas vossos têm usado como último recurso :
Para carteiras só com apoio lateral para o braço direito, se houver uma carteira vazia à vossa esquerda, arrastem-na para junto de vós e usem a superfície de carteira que ela oferece.
Em auditórios com assentos munidos de apoios só para o braço direito, reclamem um lugar vazio à vossa esquerda e usem o apoio como superfície de escrita.

“É realmente frustrante estar sentado numa sala de aula de ensino superior, onde, para poder tirar apontamentos ou fazer um teste, seja necessário usar duas carteiras, uma virada ao contrário para formar uma superfície de escrita completa em que a mão esquerda possa repousar.

O que é mais frustrante é estar sentado numa sala de aulas cheia onde esta opção já não é possível e a tentar estar ao mesmo nível de todos os alunos dextros; é muito desconfortável e algumas vezes impossível.”

“Tive dores nas costas quando usava carteiras com apoio lateral para o braço direito até que comprei um quadro. Costumava pô-lo no colo para tirar apontamentos e usava a carteira para ter o meu livro aberto. Isto servia para aliviar a dor e oferecia o bónus de duplicar o meu espaço de trabalho!”

“Levava um quadro com as medidas legais para as aulas, virava-o de pernas para o ar e fixava-o à carteira. Isto alargava a superfície de escrita mais para a esquerda e facilitava a tomada de notas… onde não existe carteira, uso um quadro com um bloco de notas.”
(REFS: Holder, 1998)

Armados com informação exacta, podemos trabalhar juntos para eliminar os problemas relacionados com assentos na sala de aula e discriminação de carteiras para as gerações futuras. De outro modo, como Kofi Anyidoho (2002) o afirmou, “Com tanta espera para ser desfeita com tanta coisa deixada por fazer durante tanto tempo continuar a apelidar a nossa situação um dilema é só uma má desculpa para a inacção,”

Referências Citadas
Anyidoho, Kofi. (2002). Excerto de “Memory & Vision”. PraiseSong for TheLand. (Legon, Ghana: Sub-Saharan Publishers), p. 25.

Holder, M.K. (1998). gauche! Left-Handers in Society,

URL: www.indiana.edu/~primate/lspeak2.html#desks
(As citações são de comentários existentes neste sítio, 1996-2003).

Educational Testing Service. (2003). Vega :
SAT test-site complaints, www.indiana.edu/~primate/lspeak2.html#desks
GRE test-site complaints, www.gre.org/com.html#complaints

Holder, M.K. (2003). Onde está o Mal Nesta Carteira? [What’s Wrong with This Desk?] Handedness Research Institute papers

www.handedness.org/portugues/carteirasadequadas.html

Visitado em 06/12/2020

Tradução portuguesa por
Drª. Flora Azevedo, Regional Coordinator, HRI Porto Bureau

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